Sérgio Alves, o líder da Banda Abel Alves

Sérgio Alves, o líder da Banda Abel Alves

Tem 44 anos, é de Cadoiço - Ventosa, onde passou a infância e cresceu, reside atualmente no Carvalhal - Turcifal, licenciado em Música na Comunidade pela Escola Superior de Educação, frequentou o Conservatório durante sete anos, é professor de música, lidera um dos grupos mais antigos e carismáticos da região Oeste - a Banda Abel Alves, que arrasta atrás de si pequenas multidões na centena de espetáculos que dá todos os anos, está englobado num outro projeto musical de sucesso a duo - os Puro Acaso,  é empresário e, seguramente, um dos músicos mais queridos desta região.
Como bom conversador que é, foi-nos respondendo às mais diversas questões que lhe colocámos, porque os imensos fãs das Bandas também gostam de saber mais, sobre o Sérgio Alves, sobre a Banda Abel Alves e sobre os Puro Acaso, e os alunos adoram saber coisas sobre o professor Sérgio...



Festa - Sérgio, licenciatura em Música na Comunidade. De que tipo de licenciatura se trata?
Sérgio Alves - É uma licenciatura que forma profissionais para poder tocar e animar em vários contextos comunitários, desde uma turma de primeiro ciclo a um grupo de seniores. É um ensino abrangente, nessas áreas em especial.
É um curso que tem parceria com a Escola Superior de Música, no Instituto Politécnico de Lisboa, em Benfica, o que nos permite sair com conhecimentos nas duas vertentes: a música e a educação.

Festa - O que leva o Sérgio a ir tirar uma licenciatura... não é muito comum nos músicos. Ou já são formados ou nem pensam nisso...
 Sérgio - Há cerca de vinte anos que dava aulas de piano em escolas particulares de música e há doze / treze anos que me surge um convite da Junta de Freguesia da Ventosa para que eu desse umas aulinhas às crianças do pré-escolar. Como não tinha grande experiência com crianças de 3, 4, 5 anos, neste contexto, fui procurar inteirar-me do que seria mais adequado para este tipo de crianças.
Sou músico, que é aquilo que mais gosto de fazer, tenho a felicidade de ter um projeto familiar estável, mas reconheço que gostei muito de estar a ensinar às crianças os primeiros passos da música, e elas retribuíam com atenção, pelo que pensei poder ser uma via alternativa, ou complementar, dentro daquilo que mais gosto.
Entretanto surge-me oportunidade de começar a “dar” também música nas AEC’s - Atividades Extra Curriculares, no ensino básico. Faço cerca de uma dúzia de formações na área, mas começo a sentir necessidade de algo mais, e embora já tivesse sete anos de Conservatório e o quinto grau em piano, é aí penso em ir mais além, sempre ligado  ao ensino e à música, claro.

Festa - Mas o Sérgio dava aulas, tocava numa das Bandas com mais espetáculos na região, era empresário musical. Como se consegue no meio disto tudo encontrar tempo para uma licenciatura?
Sérgio - Claro que não foi fácil. Mas consegui fazer uma licenciatura de três anos em quatro, o que penso que foi bom, para a vida e ocupação que tinha em simultâneo.

Festa - Com o Sérgio sempre a tocar, e a lecionar?
Sérgio - Sim. Durante esse tempo tive sempre escolas, sobretudo no concelho, para dar AEC’s. Tinha bastantes horas na altura que reduziram ultimamente a metade, por os alunos do 1º e 2º anos terem deixado de ter música, que só passou a ser lecionada aos alunos dos 3º e 4º anos do 1º Ciclo.

Festa - A música deixou de ser importante na educação das crianças?
Sérgio - Claro que não. Foi mais uma questão orçamental e de aplicação de verbas por parte do Ministério, penso eu.
Todos os estudos dizem que os níveis cognitivos de uma criança desenvolvem-se de forma drasticamente positiva, inclusive nos níveis de atenção e concentração, quando estão ligadas à música. Já Pitágoras dizia que música e matemática estão interligadas...

Festa - O Sérgio ainda se lembra de todas as escolas onde já deu AEC’s aqui pela zona?
Sérgio - Como é evidente. Nunca esqueço as crianças envolvidas e tenho uma satisfação enorme quando as revejo.
Este ano, nas EB’s, estou em Dois Portos, Runa,  Assenta, Azenha Velha, Turcifal e Conquinha. Mas já andei por muitas outras, como por exemplo Sobreiro Curvo, A-dos-Cunhados, Palhagueiras, Paúl, Boavista-Olheiros, e não sei se me estou a esquecer de alguma...

Festa - O que ensina o Sérgio aos miúdos?
Sérgio - As atividades são planeadas, e programadas, para cada período escolar.
Normalmente leciona-se mesmo muito em redor da música em si, ficando as partes mais “chatas”, se assim lhes podemos chamar, pautas, claves, etc, para aqueles que depois querem seguir mesmo a vertente musical, só tomando um primeiro contacto com elas já no segundo ciclo de ensino.
No primeiro ciclo, em especial, é uma abordagem mais rítmica, mais inicial à música e aos instrumentos. Procura ensinar-se mais o gosto pela música que a música e suas componentes teóricas.

Festa - Como músico, o Sérgio tem, neste momento e para além do Abel Alves, uma participação num duo dos mais requisitados por aqui pela zona, pelo menos?...
Sérgio - Estava a “dar” piano na Silveira e o Nuno Gonçalves fez-me um convite para formarmos um duo que ocupasse os espaços em que o Abel Alves não tivesse espetáculos.
Estava no meu primeiro ano de faculdade e com toda a atividade que tinha não dei grande atenção ao convite, mas o Nuno foi persistente, continuou a pressionar - O Nuno é que é o grande mentor desse projeto, é uma verdade - e acabámos por avançar.
Sinceramente não estava à espera de que fossemos tão bem sucedidos, mas penso que a minha experiência aliada à enorme força de vontade do Nuno Gonçalves fizeram um autêntico milagre. As pessoas aderiram e, agora, não há nada a fazer... é só tentar dar-lhes boa música e muita animação.



Festa - Como é uma noite passada a escutar os “Puro Acaso”?
Sérgio - É sobretudo imprevisível.
Ao contrário do Abel Alves, em que temos um alinhamento mais rígido, nos “Puro Acaso” temos um comportamento musical mais ao sabor do público e daquilo que nos parece que elas estejam a gostar mais.
São contextos diferentes, são públicos diferentes, e o nosso comportamento musical tenta moldar-se às pessoas que temos à nossa frente, a maior parte das vezes a interagir connosco.

Festa - Isso começou quase por brincadeira, mas hoje já não é brincadeira alguma, é uma banda com imensos espetáculos?
Sérgio - Sobretudo a partir do final do verão passado passámos a ter mesmo muitas solicitações para bares, restaurantes e assim... penso que as próprias Miss Vindimas, em que fizemos todas as eliminatórias, também deram uma grande ajuda, até para nos divulgarem como duo.
É verdade. No início tivemos que lutar para conseguir espetáculos, em especial o Nuno que é incansável, mas hoje em dia tocamos imenso mesmo...

Festa - Como é que o Sérgio consegue arranjar tempo para isto tudo, e para os “Puro Acaso” em especial?
Sérgio - Fácil não é, mas tenho a felicidade, quer num quer no outro projeto, de estar rodeado de pessoas amigas, exelentes profissionais, que simplificam tudo e tornam tudo possível de conciliar.

Festa - Não acontece o Abel Alves ter espetáculo e quererem marcar uma data para o mesmo dia?
Sérgio - Já aconteceu. Mas temos um músico que me substitui e tem, também ele, um enorme nível e muita qualidade musical. Não é por aí que se precisarem dos “Puro Acaso” os vão deixar de ter...

Festa - É bom viver neste mundo. É fácil viver no mundo da música?
Sérgio - Por vezes não é muito fácil, porque para além da música ainda temos outro amor, que é a nossa família. São duas situações que nos exigem muito tempo, muito carinho e muita atenção.
No meu caso em particular, com a minha mãe, Maria dos Anjos, que viveu sempre ao lado de um grande senhor da música, Abel Alves (o “ti Abel”), de que sinto tantas saudades que não consigo transmitir por palavras, as coisas eram muito fáceis, porque sempre estiveram no meio musical. Depois, quando parti para outra família, tive a sorte de ter também encontrado uma pessoa, a Raquel, com uma enorme paciência e capacidade para compreender o que este mundo nos exige.
Tudo isto aliado à centena e meia de espetáculos que tenho anualmente e à vertente ensino, permite viver da música, e na música, com algum desafogo.

Festa - Já têm filhos?
Sérgio - Ainda não, mas já mandei um cartãozinho para a cegonha não se esquecer de nós...

Festa - Falando agora um pouco da Banda Abel Alves, que o pai fundou e onde desde muito cedo o Sérgio se integrou. Quantos anos já tem o grupo?
Sérgio - O Abel Alves, como banda já tem 45 anos.
Nasceu de uma divergência de opiniões sobre o rumo a tomar, na época, entre o meu pai e o meu tio, e cada um formou o seu grupo.
Nessa altura formavam um dou, primeiro, e um trio para o final, que se chamava Conjunto Típico Torreense e tinha enorme sucesso aqui, na região, pelo menos, com cassetes gravadas que tinham muita procura.

Festa - Qual foi a primeira formação do Abel Alves?
Sérgio - O Abel Alves começou com o meu pai a solo, ele o acordeão enchiam os palcos, nessa época.
Um ano depois o próprio evoluir da música exigiu e entra um guitarrista e um baterista - O Albino, de Santa Cruz, e o Luís, da Serra da Vila -, e o Abel Alves começa a ser Banda Abel Alves, com o Albino a cantar, porque o meu pai nunca teve grandes dotes vocais. Era mais músico.
Um pouco depois entra um baixista, o Zeca, do Varatojo, e é com essa formação que a Banda chega aos finais dos anos oitenta.

Festa - Foi nessa altura que o teu pai troca o acordeão por um órgão muito caraterístico, tipo acordeão na horizontal?
Sérgio - Sim. Isso teve muito a ver com a exigência da música naquele tempo, porque o som do acordeão para um grupo daquele género começava a ser escasso. Daí a evolução, para se conseguir um leque de sons mais rico.

Festa - Ainda chegas a tocar nesse instrumento?
Sérgio - Ainda cheguei a tocar algumas coisas, sim. Mas para mim sempre foi um pouco complicado, porque embora tenha um som caraterístico muito bonito é um instrumento muito difícil de se tocar.
Toco acordeão, mas de teclas, ainda hoje em alguns temas de música tradicional portuguesa, ou forró brasileiro. É um som mesmo muito agradável de se escutar.

Festa - O Sérgio ainda tocou em conjunto com o pai, com o “Ti Abel”?
Sérgio - Gradualmente comecei a tocar mais temas e, durante cerca de uns dez anos, sim, tocavamos ambos um instrumento semelhante, só que com arranjos diferentes, o que acabava por tornar as músicas mais ricas ainda.

Festa - O Abel Alves, e o “Ti Abel” como era carinhosamente tratado, logo desde início se tornaram num dos grupos mais solicitados por toda esta região, o que ainda hoje acontece?
Sérgio - Aconteceu desde logo e continua a acontecer porque a minha filosofia e a do meu pai sempre foram muito coladas, muito semelhantes. Temos que perceber que nasci praticamente dentro da Banda, e as coisas se forem naturais vão acontecendo... há evidentemente coisas que são preparadas e pensadas, mas o mais importante é mesmo aquele “feeling” de se perceber o que as pessoas mais gostam ou não.
Para além disso, o meu pai era uma pessoa muito honesta, muito simples, muito autêntico, e as pessoas também apreciavam essa simplicidade. Tudo junto dava uma mistura que agradava e permitia uma empatia, uma interatividade enormes entre quem ia às festas e a Banda. Ainda hoje penso que isso existe, de uma forma diferente, claro, porque o meu pai era o meu pai, mas faço tudo para manter essa forma de estar.

Festa - Que tipo de música tocava a Banda Abel Alves nessa altura?
Sérgio - Recordo-me melhor do início dos nos oitenta, como é natural. Nessa altura tocava-se muito o Pop-Rock da época, o Disco, o Rock, o Pop, aquilo que se escutava na rádio, nesse tempo, claro.
Foi aquela fase em que os grupos tocavam três músicas (um rock e dois slow’s) e faziam um final de série, tudo rodeado de uma magia enorome. Recordo-me com emoção desses tempos, mas as coisas evoluíram, claro.

Festa - Como é que o Sérgio assiste à evolução da Banda e quando é que começa a entrar no grupo?
Sérgio - A evolução foi natural e constante.
Recordo-me de quando tinha dezanove/vinte anos e se deu como que um pequeno choque de gerações, comigo a querer fazer da banda uma coisa mais dinâmica, com luzes, com um som mais forte, etc, e o meu pai com uma paciência enorme a tentar explicar-me que as coisas evoluíam naturalmente, de forma consistente e sem grandes choques.
Entretanto já estava na Banda desde os dezassete anos, quando comecei a tocar apenas um tema durante a tarde ou noite. O meu pai tinha-me comprado o sintetizador e poder tocar uma canção era o máximo. Estava a noite toda a aguardar que chegasse a hora de tocar o "Need You Tonight" dos INXS...
O meu pai tinha razão, claro, lá me foi deixando mudar as coisas aos poucos e até ao dia de hoje as coisas têm acontecido naturalmente, sempre com uma evolução sustentada e passo a passo. Não houve um ponto de viragem em que se alterasse tudo...

Festa - Quantos espetáculos faziam nessa altura?
Sérgio - Muitos mesmo. Na ordem dos 160/180 concertos por ano.
Mas, naquele tempo havia muito o hábito de se fazer as matinés, o que por vezes fazia com que se tivesse duas atuações por dia.

Festa - Era fácil a logística. O montar e desmontar todo aquele aparato?
Sérgio - Naquela época o equipamento era mais reduzido. Cada um arrumava a “sua ferramenta” e pouco mais. As coisas funcionavam, até porque era tudo relativamente perto.

Festa - Quando é que começa a haver aquele equipamento mais sofisticado que se usa hoje?
Sérgio - Isso foi já mais nos anos noventa.
Foi aí que se começaram a utilizar aquelas mesas mais sofisticadas, os jogos de luzes mais dinâmicos, e assim.



Festa - E hoje, que tipo de música toca a Banda Abel Alves?
Sérgio - As músicas mudam mas o princípio é o mesmo de há uns anos atrás. As bandas de baile têm que tocar as músicas que passam nas rádios, os temas que são top, pois é isso que as pessoas conhecem e aquilo que estão à espera de escutar.

Festa - Continuam a ter imensos espetáculos?
Sérgio - Sim, felizmente que as pessoas gostam de nós e nos convidam para as suas festas, o que para nós é um enorme privilégio.
Ainda assim, no início do século, com o fim das tais matinés de que falei anteriormente, o número baixou um pouco, sendo que atualmente devemos fazer pouco mais de uma centena por ano.

Festa - Sentem que são um dos grupos mais queridos desta região. Que as pessoas vos acarinham?
Sérgio - Sentir, sentimos e é muito bom e mexe connosco, pois também fazemos tudo para agradar às pessoas, mas isso penso ser natural, não é por isso que nos sentimos melhores ou piores. Agora sim, é bom que gostem nós. Para além de nos honrar muito também nos faz tentar melhorar sempre e não defraudar quem gosta de nós.

Festa - Qual a vossa formação atual?
Sérgio - Em palco, atualmente temos seis elementos regularmente, e um formato mais completo com oito. Tudo depende da festa e do tipo de disponibilidade financeira que as comissões possam ter. Mas, quer com seis ou com oito elementos procuramos sempre dar o nosso máximo e oferecer o melhor possível.
 
Festa - Os elementos do Abel Alves já são músicos com muitos anos de banda?
Sérgio - Sim, se excetuarmos a vocalista, somos todos músicos com muitos anos palco e de banda, o que permite que qualquer um de nós “sinta” o grupo, porque se sente bem a tocar aqui,.
Normalmente tocamos pela região Oeste, por uma questão de agenda, mas ainda agora estivemos no Luxemburgo, em Differdange, e uma vez mais comportámo-nos mais como uma família que como um grupo musical. Saímos à rua, ou vamos tomar café, e gostamos de o fazer juntos. Existe uma cumplicidade que nos permite estar há tantos anos a tocar em conjunto e a encarar a Banda Abel Alves como a nossa segunda família.

Festa - Projetos futuros que o Sérgio queira revelar?
Sérgio - Pessoalmente, para além de vir a procurar ter um filho, claro, sinto-me muito bem com o que faço, sinto-me muito confortável. Para que quereria estar a mudar algo, ou pensar em novos projetos, quando estou a fazer exatamente o que gosto e me sinto feliz com o que faço.
Penso que é mais importante deixar rolar as coisas e usufruir da enorme mais valia que é poder fazer o que escolhi, o que gosto, e que me torna e faz muito feliz...

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