Opinião: Basta querermos perceber  o sentido figurado (muito pertinente)  das afirmações do holandês Dijsselbloem

Opinião: Basta querermos perceber o sentido figurado (muito pertinente) das afirmações do holandês Dijsselbloem

As afirmações do ministro holandês Jeroen René Dijsselbloem são criticáveis pelo mote utilizado. Talvez condenáveis por isso e apenas por isso. O comum dos portugueses deve revelar-se mais inteligente e entender quem foram os verdadeiros visados: precisamente os que se apressaram a fazer as maiores críticas ao social-democrata holandês. Pura conveniência. Colocar os cidadãos no sítio que entendem como certo. Acredito que grande maioria de nós percebeu… Só alguns é que não!

Percebo Jeroen Dijsselbloem perfeitamente: É estranho recebermos biliões da União Europeia e termos gestores públicos e privados a esbanjar milhões por saberem que depois as instituições são resgatadas. Não é expectável que ainda persistam por fazer reformas estruturais neste País quando precisamente recebemos verbas exorbitantes para as fazer.

Naturalmente a União Europeia deve culpar-se: Foi ineficaz, não fiscalizou, ignorando a nossa especialidade nas trapalhadas…

Recordemos apenas os casos mais recentes e só no sector financeiro como os decorrentes das perturbações, indignas para todos os cidadãos, ocorridas na CGD, BES, BPN, BPP, BCP e agora mais recentemente Associação Mutualista Montepio, dona do banco Caixa Económica Montepio Geral, guardiã das poupanças e investimentos de centenas de milhares de portugueses que se encontram desprotegidas em caso de falência da Mutualista, por esta não se enquadrar na legislação bancária. Uma vergonha se atendermos à sua administração que inclui um conhecido membro da clerezia, o padre Melícias. Vejamos ainda o descrédito onde jamais devia ter sucedido: na igreja, numa das suas instituições, a Cáritas Diocesana de Lisboa.

O ministro holandês Dijsselbloem foi pertinente, tem acervos de razão: Portugal continua a ser uma espécie de país, onde metade são donos disto quase tudo que se permitem enganar a outra metade, e onde começa a ser difícil encontrar uma instituição credível e em quem confiar. A democracia portuguesa tem realmente um custo elevado.

Seria aconselhável ouvir alguns bons avisos à navegação, sobretudo quando em pleno século XXI, em 2017, temos mais de 2.000.000 de habitantes a viver no limiar da pobreza e quase 700.000 crianças até aos 15 anos que tem de se alimentar com menos de 1 euro por cada dia que passa.

Sejamos cultos e entendamos a mensagem, plena de oportunidade, do ministro holandês.

Jeroen Dijsselbloem - figura que nem sequer aprecio por ser um europeísta convicto que não sou - foi infeliz mas ninguém dúvida do seu estrito sentido figurado.

Contudo, não deixou de ser pertinente. Uma análise correcta depende da audição completa da sua mensagem e do contexto em que foi proferida: Absolutamente para os gestores, políticos e algumas instituições portugueses, nomeadamente a banca em geral. Aliás, momentos antes, alguns pares europeístas comentaram notícias recebidas de Portugal (o caso Montepio, CGD e processo Marquês) e também sobre a colossal divida privada portuguesa, assente num determinado tecido empresarial.

O ministro holandês não se referiu - seguramente - aos portugueses comuns, tanto mais que, há cerca de dois meses, foi o próprio a admitir as imensas dificuldades da classe média portuguesa e a acreditar que os pobres deviam estar mais pobres. Mais: o presidente do Euro-grupo - da mesma família política do partido socialista português - não acredita nas melhorias significativas do quotidiano dos portugueses tão badalada por António Costa, apresentado o caderno global dos impostos praticados no País, sejam os directos e indirectos. Chegou a utilizar a expressão "ficção" e a adiantar que o tempo o deverá revelar.

E este é um momento que carece de seriedade nossa. Por exemplo, para quem conhece a Holanda, pergunta-se:

  1. Encontram algum modo de comparação entre a vida dos holandeses e dos portugueses em geral?

  2. Gostavam ou não de ter a qualidade de vida e o rendimento per capita de um holandês? Aprovavam ou não de viver num País que já se encontra na linha da frente dos mais sustentáveis, mesmo do ponto de vista ambiental?

Por outro lado, o recado de Jeroen Dijsselbloem está intimamente ligado ao Brexit. A saída do Reino Unido da União Europeia significará uma diminuição nas disponibilidades financeiras da União dentro de dois anos. O Reino Unido é o maior contribuinte líquido da organização. Os fundos comunitários para os países mais frágeis vão ser esmagados. Portugal receberá muito menos que agora. A curto prazo arriscamos ao ditado popular antigo: Vamos torcer a orelha e ela não deitará pinga de sangue... E depois, temos o direito de nos queixar?

E termino com uma reflexão. Fui dos mais críticos às tremendamente injustas condições que a troika nos impôs, a nós portugueses comuns que nada tinham de relação com os que apadrinharam o delapidar das maiores empresas do sector público e privado que, curiosamente, são maioritariamente prestadoras de serviços (banca, seguradoras, distribuição de energia, distribuição e transportes), muito pouco capazes de acrescentar verdadeiramente valor à economia nacional, antes a deixam dependente de comércios e importações que nos levam o dinheiro para fora do País, sejam por pagamentos directos ou indirectos, sejam pela distribuição de dividendos ou subvenções.

Há sempre tempo dos mais capazes protagonizarem um amplo debate nacional de Norte a Sul do País, sobre que futuro querem para o País, numa lógica de alfabetização do século XXI sobre as coisas que interessam verdadeiramente. Antes pelo contrário, hoje, já vivemos num País outra vez cor-de-rosa, onde somos bombardeados com notícias do Sr. Feliz e do Sr. Contente e com as delicadezas que nos distribuem diariamente, a troco de mais esperança e patriotismo, que novamente nos adormecer com um embalar em todo conveniente.

Mantemo-nos eternamente no fio da navalha, não tendo vergonha em comprometer as gerações futuras. Simplesmente lamentável!

 

* José Maria Pignatelli

 

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