No topo do Oceano

No topo do Oceano

Em Tenerife arruma-se a casa na ambição em recuperar o passado de uma insularidade carente, tornada repentinamente ostensível com muitos castelos de areia. A expectativa é distinguir a sua natureza deslumbrante, torná-la sustentável, promover uma imagem de qualidade, diminuir o desemprego e a precariedade. Passaram pelos dois aeroportos da ilha 15,94 milhões de passageiros.



Voar para Tenerife permite-nos um momento fascinante à chegada: somos como que abençoados pela montanha do Teide, com um cume a 3.718 metros acima do nível do oceano. Da vigia de um Bombardier, deslumbramo-nos com a cratera selada de um vulcão adormecido – segundo a história – desde 18 de Novembro de 1909, sobre um manto de nuvens de algodão num branco e tons de azul quase incandescentes, próprio do reflexivo Sol de África. Estamos perante o relevo mais alto de Espanha e de todas as ilhas do Atlântico e a pouco mais de 300 quilómetros de Marrocos. Do ar, como de terra em dias de bom horizonte, vêem-se as silhuetas das ilhas de La Gomera, da Gran Canária e de La Palma.
Mais abaixo somos surpreendidos por duas paisagens distintas: a Norte, verdejante e húmida, a Sul mais seca e árida, num contraste singular que já conferiu distinções da UNESCO. Aterrámos numa ilha com 2.034 quilómetros quadrados - mais que duplica a área da ilha da Madeira – que apresenta a silhueta de um bacalhau, tal qual vemos nas prateleiras dos nossos mercados.
Entrámos num mundo de contrastes:
Há parques naturais reconhecidos mundialmente, guarda-se a água como uma relíquia; património histórico, espaço público, serviços de saúde e sinalização vertical e horizontais quase irrepreensíveis; infraestruturas persistentes, salas de espectáculos ao serviço dos cidadãos, dois parques zoológicos sem jaulas, entre os mais reconhecidos do planeta, o segundo mais impressionante carnaval do Mundo;
Mas também paisagem para recuperar da proliferação da construção e ainda um processo do ordenamento do território por terminar, onde ressalta uma quase gigantesca bolha imobiliária pós 2008.
Tenerife precisa ainda de se adaptar a uma população meio gigantesca: mais de 908 mil habitantes a que se juntam mais de 110 mil residentes estrangeiros e uma população flutuante superior a 10 milhões de turistas anuais. Tenerife é a maior ilha do arquipélago das Canárias e a mais povoada entre todas as que fazem parte do reino de Espanha e também a maior e mais populosa ilha da Macaronésia de que fazem parte os arquipélagos da Madeira, Açores e Cabo Verde.
A facturação do turismo no ano passado – dados ainda provisórios – terá encerrado com 18.000 milhões de euros, mais 9% relativamente ao exercício de 2016 que ultrapassou ligeiramente os 16,5 biliões. Em 2017, visitaram as Canárias 18,7 milhões de turistas dos mais de 85 milhões que visitaram todo o território espanhol. Um recorde que se comemorou efusivamente.
Surpreendente é o facto de 76% dos turistas que entraram nas ilhas em 2017 já o terem feito por uma ou mais vezes. E Tenerife tem 10 dos melhores 50 hotéis do Mundo. O Conselho do Turismo das canárias promoveu 250 acções junto de 19 países, realizando-as em 15 idiomas.

¡Hola! ¿Que tal?
¡Hola! ¿Que tal? … De sorriso nos lábios – eis a primeira saudação ouvida à entrada de uma confeitaria, precisamente a mesma que ouvimos na esmagadora maioria dos locais onde entrámos, durante 21 dias.
Ali, a resposta ocorreu-me de forma simples: Bien gracias, quiero uno cortado leche y leche. Nem mais: uma espécie de bebida universal canária que a história nos indica ter origem na vizinha e portuguesíssima Madeira. Num copo de vidro meio esguio, serve-se um café expresso sobre uma porção de leite condensado, à temperatura natural, concluindo a decoração de topo com espuma de leite. É tão bom quanto de encher o olho. Melhor só mesmo o barriquito, literalmente um cortado num copo mais alto, onde ao café se acrescenta o abrasivo e célebre licor 43.
À despedida ouvi um meio cantado: gracias, ¡cariño!
Iniciava-se o reconhecimento da ilha, 45 anos depois. As duas horas de grande esforço de memória, durante o voo, esfumou-se passados os primeiros minutos em terra. Bastava olhar para o porto de mar de Santa Cruz. Como que triplicou numa estratégia para eficiência quase extraordinária, numa espécie de 3 em 1: porto para navios de passageiros e ferries, marina para embarcações de recreio e um outro espaço com duas outras áreas de acostagem dedicadas aos navios de contentores e aos petroleiros. Já lá não encontrámos os velhinhos vasos de guerra que serviam para destilar a água que corria nas canalizações e para gerar a electricidade que se consumia.
Entrei numa Tenerife emancipada, onde se aproveitaram as contribuições da União Europeia, bem e mal, mas claramente com mais obra de qualidade. Os quatro melhores exemplos de investimento em infraestruturas e criatividade são: o El Parque Nacional do Teide, desde 2007 Património Mundial, o mais visitado em Espanha e um dos mais percorridos parques nacionais do mundo (4.079.823 pessoas, em 2016); as montanhas de Anaga que são Reserva da Biosfera e o local com maior número de espécies endémicas na Europa; os sistemas de preservação da água – o bem mais precioso para os tenerifanhos da costa Sul - para rega das imensas agriculturas que encontramos em cada espaço, mesmo nos mais inóspitos.
Não menos surpreendente, a Sul, são as estufas de produção de banana e de hortícolas, armadas em telas da cor da terra para se confundirem na paisagem mais árida. Sobressai ainda o preço dos combustíveis: 100 litros de gasolina 95 Eco custaram 93,30 euros… Mas há promoções que podem chegar aos 11 cêntimos.
Sem que ninguém nos tenha de explicar, percebe-se que é precioso acolher bem, mas produzir o mais possível o que se consome e com padrões de qualidade. É extraordinária a quantidade de produtos que se vendem sem glúten e até sem lactose a preços comuns. Salta à vista a carne de porco (cerdo, em castelhano) fresca, já temperada ou não, com certificação deste nível.
Nas Canárias, procuram-se meios de subsistência para além do turismo e do comércio e joga-se com as isenções ou reduções de impostos aplicados em nome da insularidade. Renovaram-se as estradas, modernizaram-se os oito aeroportos, garantem-se as ligações marítimas entre as ilhas e o continente com os ferries mais modernos e velozes, também evoluíram os meios de transportes rodoviários nas maiores ilhas.
Tenerife tem dois aeroportos internacionais: Tenerife Norte, chamado Los Rodeos, e o Tenerife Sul (Aeroporto Reina Sofia), perfeitamente modernizados, por onde passaram 15,94 milhões de passageiros, em 2017, do total de 44.035.311 passageiros que foram movimentados nos oito aeroportos das Canárias. Um recorde absoluto e que muito contribuiu para que Espanha lidere o Índice de Competitividade Turística, anunciado no último relatório do World Economic Forum divulgado em Davos, em Janeiro último.
O primeiro data de 1929 (completamente renovado em 1946) foi construído ao lado da antiga capital, San Cristobal de la Laguna, a 631 metros de altitude, escassos 11 quilómetros de Santa Cruz, e é mais utilizado por companhias de bandeira sobretudo para voos entre ilhas e regionais, onde se incluem algumas cidades europeias como Copenhaga, Hamburgo, Frankfurt, Barcelona, Madrid, Lisboa. Também de Marrocos, Senegal, ilhas da Madeira e de Cabo Verde. Foi neste aeroporto que aconteceu o maior acidente da história da aviação comercial: a 27 de Março de 1977, em plena pista, colidiram dois Jumbos (Boeing 747); 583 passageiros perderam a vida.
O segundo, fica na zona mais turística ao nível do mar, na municipalidade (ayuntamiento) de Ganadilla de Abona, foi inaugurado em 1978, tem duas pistas, terminal para voos da União Europeia e domésticos continentais, e outro para voos de fora da Europa e entre as ilhas Canárias.
Duas auto-estradas (TF1 e TF5) sem portagem, circundam a ilha inteira, ligando todas as vilas e áreas turísticas com as duas áreas metropolitanas. A excepção é no Oeste de Adeje a Icod de los Viños, que é atravessada por uma estrada de montanha, enquanto na cidade de Santa Cruz funciona uma rede de metro de superfície.

Uma administração de 1927
A governação da ilha é feita por um Cabildo que é uma entidade administrativa da Comunidade Autónoma de Canárias e que encontramos nas ilhas de Tenerife, La Palma, La Gomera, El Hierro, Lanzarote, Gran Canaria e Fuerteventura. La Graciosa não possui cabildo próprio, integrando-se no de Lanzarote.
Os cabildos são idênticos aos "Concejos Insulares" das Baleares. Têm competências intermédias entre as das assembleias provinciais e as Comunidades Autónomas, em matérias como saúde, ambiente, cultura, desportos, indústria, vias terrestres, água potável e de rega, gestão de licenças de caça e pesca, museus, praias, transportes públicos e ordenamento do território. Têm o poder de lançar derramas sobre o preço dos combustíveis. Os seus membros são eleitos por sufrágio universal.
A palavra "cabildo" tem a mesma origem que a palavra portuguesa "cabido", um organismo eclesiástico diocesano que servia para amparar os bispos.
As 31 municipalidades de Tenerife também têm um desempenho importante na administração do território.

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