É nacional, é mais caro, mas é bom! ...um dia com Rafael Cabral - feirante.

É nacional, é mais caro, mas é bom! ...um dia com Rafael Cabral - feirante.

Made in Portugal já é a maior aposta dos nossos feirantes. Rafael Cabral orgulha-se em vender 90% português.  É sempre a sua primeira sugestão.

O feirante é socialmente incompreendido, quase sempre. São uma espécie de nómadas contemporâneos. Recai nele a faceta do negociante puro e duro, do comerciante sem grandes esmeros, associado àquela máxima de ‘quem tem olho é rei’ e que ‘vende gato por lebre’. Nada mais falso: O feirante é um agente económico e um contribuinte como qualquer outro com contabilidade organizada. Encanta centenas de milhares de portugueses, movimenta milhares de euros e faz mover dezenas de fábricas nacionais. A maioria da classe faz uma primeira aposta: vender português o mais possível; o melhor a um preço acessível, mesmo popular se assim tiver de ser, nem que isso se traduza em margens de comercialização minimamente suportáveis. Há quem tenha carteira de clientes e, ao contrário do que se possa julgar, muitos são cidadãos endinheirados.


Na maioria das vezes, o negócio é familiar e herda-se, passando de geração em geração. Ao virar do século, muitos deles passaram a ter vida dupla. A invasão dos bazares chineses numa disputa comercial desigual, alargou os horizontes do feirante. Há quem se tenha estabelecido no mesmo ramo, mas também os há que diversificaram, dedicando-se à distribuição, à agricultura, à pecuária, à apicultura… E ainda existem senhores doutores e outros profissionais que não abdicam do seu entusiasmo uma ou duas vezes por semana.
Ser feirante é uma paixão, mesmo que isso signi-fique deambular centenas de quilómetros, montar a tenda, faça sol ou chuva, calor ou frio e haja mais ou menos vento...
Rafael Cabral é a segunda geração do feirante António Cabral Alves.
Adora os trapos.
Conhecem-no com o ‘rapaz das gangas’.
Chegou às feiras em 1989. Era o Rafita. Tinha 9 anos. Acompanhava o seu pai, sempre que a escola permitia. Ganhou-lhe o gosto e o jeito. Hoje, três vezes por semana, desperta minutos antes das cinco horas da madrugada; às 6 da manhã faz-se à estrada; tudo depois de um dia dividido entre a loja, o armazém, um treino de kravmaga e a família por quem se mantém apaixonado. Rafael tem 39 anos, é casado com Maria José e tem duas filhas, a Inês, de 9 anos, e a Diana, de 6 anos.


Há feirantes que têm a primazia de vender
90% da mercadoria 100% portuguesa
e produzida pela melhor indústria nacional


Quarta-feira, 6 horas e 30 minutos. A manhã está fria. Fazemos guarda a Rafael Sousa Martins Cabral a caminho do Cacém, no concelho de Sintra. É a primeira feira da semana do “Rapaz das Gangas” como é conhecido. Seguem-se Tires, no sábado, e Pinhal Novo, esta ao domingo, mas só uma vez por mês. Depois, acontecem pontualmente aquelas em que poderá ter de acompanhar o pai António Alves.
São 7 horas e 15 minutos, arregaçam-se as mangas, calçam-se as luvas e montam-se as bancas. Expõem-se as gangas, fazendas, bombazinas, camisas, malhas e casacos. Tudo com arte, porque os olhos comem. 90% das peças são 100% portuguesas e produzidas pela melhor indústria têxtil nacional. Nas mesmas fábricas de onde saem alguns dos exemplares das marcas mais emblemáticas da moda. Na maior parte dos casos, a diferença está apenas na etiqueta.
Rafael Cabral conhece o meio como as palmas da mão (tem as melhores relações com os fornecedores) e não hesita: “As fábricas não tem duas linhas de produção, uma para as grandes marcas e outra para os menos endi-nheirados. Diferenças só eventualmente nos acabamentos e ainda assim seria uma atrapalhação para os profissionais e uma perca de tempo e dinheiro para os industriais. Os têxteis portugueses têm imensa qualidade e nascem de uma mão-de-obra qualificada”.
Rafael faz questão em vender do melhor da nossa indústria nas feiras e na sua loja, a Despe & Veste que começou por se dedicar à moda jeans. O Rafita, tal como diz o Manuel, cliente habitué, “sabe o que é bom, percebe disto e nele podemos confiar”.
8 Horas, tempo para degustar uma torrada, galão e umas nozes. Ouve-se o ‘bom dia’ repetidamente. Às quartas-feiras, o Rafael é da casa. 8 Horas e 45 minutos, a feira enche-se. A temperatura parece como que subir; o frio dissipa-se.
É tempo de atender a clientela. Segue-se a interrogação mais audível: “Bom dia, como está?”… Mas, no meio do bulício, há quem se atreva a perguntar se o preço é o mesmo da semana passada e quando haverá saldos na banca do Rafael. É lançada a piada e a escada para o desconto. Do lado de cá, Rafael Cabral sussurra-me ao ouvido: “Saldos já eu faço o ano inteiro… Já lá vai o tempo em que sabíamos que os nossos sonhos se cumpriam, que conseguíamos cumprir objectivos e um plano antecipado de compras”.

Revista Festa – A perturbação de 2008 e o resgate ao País, em 2011, afectaram os sectores teoricamente menos essenciais do nosso quotidiano. O negócio do vestuário e do calçado foram dos mais atingidos, não porque tenhamos passado a andar despidos ou descalços, mas em tempo de crise as famílias têm outras prioridades. As dificuldades aconteceram mesmo, mas até que ponto foram destrutivas do retalho e do comércio?
Rafael Cabral – O momento conturbado pós 2008 foi bastante prejudicial para o sector. Muitas dessas dificuldades ainda se mantêm. Fecharam imensas fábricas pelos mais diversos motivos. Quem quis sobreviver arriscou investindo e, muitas vezes, hipotecando os resultados de 10, 15 e mais anos. Mas evoluíram tecnologicamente, inovaram e criaram design próprio, aumentaram a produção e recriaram as suas carteiras de clientes. Também tiveram a coragem de fazer entender que a qualidade tem de ser paga.

Revista Festa –  Presentemente, os clientes das feiras não são tão distintos dos que compram na loja, tão-só porque muitos dos cenários das feiras se circunscrevem, cada vez mais, em espaços urbanos. Ambos os clientes são tratados do mesmo modo?
Rafael Cabral – Não existe diferença alguma, o cliente é sempre tratado da mesma maneira, com amabilidade e educação na feira ou na loja, talvez a abordagem primária ao cliente seja mais directa na feira, ´à moda da extinta Feira Popular de Lisboa nas zonas da restauração’, se bem se lembra… Enfim tenta-se puxar o cliente à banca. A maior diferença só mesmo entre os grupos etários; as feiras são frequentadas por pessoas de mais idade, curiosamente em contraciclo com o que sucede em algumas cidades europeias como em Roterdão, na Holanda.


Nas feiras, os clientes são mais desconfiados.
Rafael anda sempre de fita métrica pendurada no ombro.
Mas quase sempre, acerta na medida à primeira vista


 
Interrompemos a conversa. Impõe-se atender um cliente da banca do lado. O Sr.  Alexandre tinha ido tomar café. Foram precisos apenas 5 minutos, para confirmar o tamanho da cintura – quase sempre, basta um golpe de vista para o Rafael acertar nas medidas – e vender um par de calças… E logo de seguida apareceu o Sr. Armando, um cliente antigo, sem hesitações: “Bom dia! Preciso de umas coisas boas. O habitual. Roupa nossa (…) e assim mais janotas para o final da semana”.
Num ápice, Rafael passou para a frente da banca de fita métrica em punho. O Sr. Armando escolheu bem. Aceitou a sugestão do Rafael Cabral: umas calças de bombazina, uma camisa 100% algodão e um pullover de alta qualidade, tudo a condizer em tons de azul.

Revista Festa – O Rafael das feiras, ao ar livre, é dife-rente do Rafael fechado entre as quatro paredes da loja?
Rafael Cabral – As Feiras, transmitem-me uma liberdade diferente só pelo facto de ser comércio ao ar livre, por sua vez faz-me ser mais extrovertido. No entanto, creio que quando estou na loja, com os meus clientes de longa data, essa diferença não existe.


Comprar bom, ao melhor preço, 100% português,
dificilmente se consegue nas grandes superfícies

Nova pausa. Os clientes sucedem-se uns aos outros. Vinham como que à boleia das mulheres que faziam um frenesim a meia dúzia de metros, nas bancas das frutas e dos legumes, na do pão e bolos quentes, acabados de chegar de Mafra, ou nas roulottes dos queijos e enchidos. Rafael estava meio admirado. Esperava um dia frouxo. “Estamos em Fevereiro”, disse e em seguida explicou: “É um dos piores meses do ano. O frio mantém-se, mas já quase todos compraram roupa de Inverno, mas ainda é cedo para comprar vestuário mais fresco, de meia estação, de Primavera-Verão”.
A manhã estava inspiradora: o Sol estava meio encoberto e corria uma brisa fria, vinda da Serra de Sintra. Era tempo de atender mais clientes. Não há mãos a medir; logo dois em simultâneo, e levar um deles ao provador, no furgão estacionado a uma dúzia de metros. Deixámos a entrevista para depois de almoço, já no Centro Comercial do Chapim, entre a loja do Rafael e uma esplanada paredes meias.

Revista Festa – Para quem frequenta as feiras, torna-se perceptível que já lá vai o tempo em que eram um espaço iminentemente anónimo e popular para quem só procurava barato. Mais barato que nas lojas ainda poderá ser. Hoje, já se procura qualidade e vemos cada vez mais endinheirados e figuras públicas a comprar nas feiras. Tires é um dos melhores exemplos. Afinal, vale a pena comprar nas feiras, mesmo os produtos perecíveis?
Rafael Cabral – Claro que vale a pena comprar na feira como também no comércio tradicional. O que noto por parte dos clientes nas feiras é uma grande vontade em comprar 100% português, com o melhor preço e qualidade, o que, por exemplo, dificilmente encontram nas grandes superfícies.

Revista Festa – Os tempos mudaram. Percebe-se que existem feirantes mais sugestionados pela moda, apresentação e acondicionamento. O vestuário vem dobrado e muitas das peças dentro de embalagens individuais, as bancas também têm um visual mais organizado e tudo se transporta em caixas cuidadas. Até já nos deparamos com a modernidade de poder pagar utilizando cartões de débito. Estamos perante feirantes mais rigorosos consigo próprios ou porque os clientes são mais exigentes?
Rafael Cabral – As feiras e os feirantes tiveram de se actualizar aos tempos que correm. Passou a haver um rigor e um profissionalismo diferente, o cliente exige-o e para marcar a distinção, assim teve de acontecer. Tenho a perfeita certeza que os meus clientes se sentem bem tratados. Os que me conhecem sabem que os meus conselhos são os mais assertivos e que procuro sempre que adquiram o melhor, o vestuário mais durável, nem que isso signifique mais uns poucos euros (…). E aqueles que têm uma primeira experiência comigo voltam sempre.

Revista Festa – A primeira sugestão do Rafael recai sempre nos produtos nacionais, contrapondo-os às peças fabricadas nos países asiáticos, mesmo quando o preço é mais baixo. Faz mesmo questão, à vista de todos, em comparar umas e outras peças, fazendo uma espécie de contraditório. Onde estão as grandes diferenças?
Rafael Cabral – Sugiro sempre a comprar produtos ‘Fabricados em Portugal’, não só por me considerar patriota, mas por acreditar que só assim a economia nacional poderá crescer. Por outro lado, tenho a convicção que os nossos produtos acrescentam valor e tem qualidade e processos de produção substancialmente melhores que os produzidos na China. Nem é preciso fazer um grande exercício de comparação. As diferenças vêem-se a olhos vistos. Ainda assim, para os mais distraídos basta tocar nas peças e ver os acabamentos. Ao fim de tantos anos, basta-me olhar para umas calças de ganga que lhe digo peremptoriamente onde foram fabricadas. Qualidade é nacional, ponto final.

Revista Festa – Lembro-me de há três décadas atrás, os feirantes serem vistos como vendedores dos refugos da indústria. Contudo, percebe-se bem que não é assim. Compra-se directamente nas fábricas portuguesas ou a empresas intermediárias? E a contabilidade é sempre organizada?
Rafael Cabral – Há uns anos, compensava comprar em grandes quantidades, criar stock’s, e naturalmente fazê-lo directamente às fábricas. Presentemente, temos a vida mais facilitada; muitos industriais do Norte do País como do estrangeiro têm representações e revendas na Grande Lisboa (…). É claro que este negócio obriga a contabilidade organizada.

Revista Festa – Somos forçados a considerar que o Rafael está entre os feirantes modernos. Tem como que dois trabalhos diferentes apesar de ambos ligados ao vestuário. Em dia de feira, o horário estica-se: Não estaremos longe da verdade se afirmarmos que trabalha 12 e mais horas. Qual é a razão maior em o Rafael Cabral ser um apaixonado pelas feiras?
Rafael Cabral – Herdei do meu pai esta paixão e a veia de comerciante. Gosto do contacto com o cliente, tenho prazer em trabalhar ao ar livre, apesar dos enormes sacrifícios, sobretudo físicos, a que isso obriga. Mas também gosto do ambiente de loja, onde temos outras tarefas, como por exemplo actualizar e decorar as montras, gerir os stock’s de modo ainda mais racional, de acolher o cliente com uma prestação de serviço mais abrangente, pois basta que a peça precise de qualquer ajuste, bainhas ou um outro arranjo de costura… e ainda por ter a independência em trabalhar para mim próprio.

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