Eleições Europeias: Abstenção, brancos e nulos, uma maioria absolutíssima - PAN caiu em graça e cresceu em dobro

Eleições Europeias: Abstenção, brancos e nulos, uma maioria absolutíssima - PAN caiu em graça e cresceu em dobro

Mais vale cair em graça do que ser engraçado”, eis o provérbio popular que assenta lindamente no resultado conseguido pelo partido político Pessoas-Animais-Natureza, nas eleições para o Parlamento Europeu do passado domingo. 168.501 Eleitores votaram no PAN, contra os 75.140 votos obtidos nas “Legislativas” de 4 de Outubro de 2015. Em menos de 4 anos, o partido dirigido por André Silva obteve mais 93.361 sufrágios, mais do dobro. Este resultado valeu a eleição de 1 eurodeputado que integrará o Grupo dos Verdes/Aliança Livre Europeia (Verdes/ALE) que se tornaram na quarta maior representação no Parlamento Europeu.

Naturalmente que os resultados eleitorais extraem-se do reduzido número de eleitores participantes, apenas 30,73% dos inscritos, ou seja votaram 3.314.423 dos 10.786.049 de portugueses que o podiam fazer. E ainda assim, deste universo restringido, 229.915 votantes deslocaram-se às urnas para protestar: 140.954 (4,25%) votaram branco e outros 88.961 (2,68%) anularam o voto.

Os números são reveladores: A soma dos ‘brancos’ com os ‘nulos’, os “protestantes”, ocupam a 4ª posição na classificação, atrás do Bloco Esquerda, mas à frente da coligação CDU e do CDS que obtiveram 228.157 e 205.111 escrutínios respectivamente.

De qualquer modo, o enorme desinteresse dos eleitores portugueses não encerra qualquer debate novo: Os partidos cantaram vitória, uns com maior convicção que outros e ignoram a abstenção de 69,27%.

Mas o mais extraordinário é o facto de o PAN ter caído em graça dos portugueses mais urbanos: Ficou à distância de 36.610 votos do CDS/PP. E consegui-o:

  • Sem ter de fazer uma campanha vistosa;

  • Ter cumprido mais de três anos de uma legislatura em modo discreto, sem grandes propostas ambientalistas, mais relacionadas com a dignidade da vida animal;

  • Sem ter explicado convenientemente – e como se impunha a bem da transparência - a relação de militantes do partido com o IRA – Intervenção e Resgate Animal – que se revela como uma espécie de gang, de foras-da-lei, com actuações indignas e que, aos olhos de muitos, se assemelha a um grupo armado ao serviço das ideias, convicções e princípios filosóficos, sociais, políticos arraigados ao Pessoas-Animais-Natureza.

Há quem defenda que se está perante uma moda, muito sustentada por um marketing universal, da autoria de uma nova classe contra-cultura, extraída da globalização, tal como aconteceu na década dos ‘Anos 60’ do século passado, com o surgimento dos hippies.

 

Verdades, meias verdades e falsidades

Vivemos um paradigma que nos coloca globalmente entre verdades, meias verdades e falsidades pela maioria de nós optar por seguir, quase cegamente, correntes de opinião sustentadas em teorias, mitos e modas desprovidas de conhecimento técnico-científico, de experimentalismo e de praticabilidade. Ouvimos o que queremos, o que mais nos conforta ou o que damos por adquirido. São poucos os que emprestam parte do seu tempo ao pensamento, ao conhecimento e à reflexão, optando pela via do facilitismo, pelo pior que o ciberespaço oferece, as notícias sem confirmação e ou investigação que acabam em meias verdades ou falsidades, na maioria das vezes. As ilusões cegam-nos. Escondem a realidade.

 

União Europeia gasta 200 milhões nas sucessivas mudanças

de Bruxelas para Estrasburgo e vice-versa,

tudo em nome do simbolismo

Vivemos num miserabilismo espiritual e num Mundo culturalmente ignorante, mesmo em extremo… Os eurocépticos; todos aqueles milhões – cuja maioria se absteve - que reflectem seriamente sobre o futuro de um projecto europeu, sobre os custos exorbitantes das suas organizações, que ascendem a quase 10 milhares de milhões anualmente. Não escrutinam a razão que leva a gastar 200 milhões de euros todos os anos só nas sucessivas mudanças entre Bruxelas e Estrasburgo, tão-só em nome do simbolismo. Ninguém debate as dificuldades de uma união de facto mais colectiva, inclusiva, objectiva e pertinente onde, por exemplo, vingasse a União Tributária, evitando verdadeiros paraísos fiscais dentro dos Países Membros (como os exemplos da Irlanda, Holanda, Luxemburgo, Malta, Chipre, a portuguesa ilha da Madeira).

Todos os que pensam fora da caixa do colectivismo circunstancial e do politicamente correcto, são literalmente circunscrevidos aos rótulos de Populistas, extremistas de esquerda ou de direita, jingoístas, racistas, anti-imigração, anti livre circulação de pessoas e bens e mais umas quantas significações descritas nos melhores dicionários globais. É lamentável que assim seja.

O Mundo vive um momento em que se impõe reflectir. Devemos preocupar-nos com tudo o que sucede à nossa volta. Teremos de reler antigos ensinamentos e rever legados que nos foram deixados. Por exemplo, nós portugueses, deviamos ler e reler Eça de Queirós e Fernando Pessoa, tão actuais que estão. Também ler e reler a história de uma Europa com seculos de conflitos e uma maioria entre pares de uma mesma elite e ou famílias próximas; de uma Europa ora imperial ora miserável que fez centenas de milhões de mortos entre si e em outros continentes, construindo e alicerçando um Mundo de desigualdades que se iniciou com a esclavatura que durou séculos.

Por que razão somos obrigados a ouvir apenas os profetas do mal, os comentadores de uma facção alarmista; dos que adivinham e ou antevê uma espécie de holocausto, o perigo de regimes totalitários ou autocratas entre os países do Ocidente europeu – excluam-se os da Euroásia como por exemplo a Turquia, já transformado num regime presidencialista com cariz diatorial - só por que são cada vez mais as vozes assustadoras equivocadas e a confundirem-nos, qui ça propositadamente, com as definições ‘nacionalismo’ e ‘populismo’. Não querem que percebamos que o nacionalismo é uma tese ideológica, surgida após a Revolução Francesa que, estritamente, será um sentimento de valorização marcado pela aproximação e identificação de e com uma nação, enquanto o populismo – termo excessivamente vago – poderá entender-se como um conjunto de práticas políticas que encerram num apelo aos cidadãos comuns, habitualmente contrapondo-os às elites sociais, políticas e económicas.

Somos colocados perante um ano determinante – muito por força das eleições ‘Europeias’ - de onde sairá a composição do Parlamento Europeu que depois nomeará os Órgãos cuja missão é regulamentar a vida dos povos dos Países Membros e, de certa forma, a actividade económica e financeira dos dezanove membros do Euro Grupo, ou seja nos países da moeda única. Mas há espaço para uma reflexão sobre o estado da União Europeia:

- A continuação dos países contribuírem para uma União Europeia, enquanto organização que não cuida efectivamente dos interesses globais dos seus Membros, nem concessiona a mesma importância a todos eles enquanto seus pares;

- A ingerência no quotidiano dos países a todos os níveis, mas deixando de fora condicionalismos que favorecem os mais fortes economicamente e nem sequer conseguindo fomentar uma politica fiscal comum;

- A excessiva falta de controlo nas fronteiras, abrindo-se os países à entrada de todos os cidadãos, mesmo daqueles que oriundos de países de fora da União, sem identidades que se possam confirmar e obrigando a esforço de compensações sociais suplementares;

- A sistemática vulnerabilidade da segurança dos cidadãos e dos seus bens;

- A ausência de políticas europeias concertadas, sobretudo no que concerne às imigrações e estratégia no âmbito da política internacional;

- A falta de autonomia na generalidade do relacionamento bilateral com países fora da União. Veja-se o exemplo extraído do Brexit que pode encontrar soluções positivas para todos, precisamente com a liberdade do Reino Unido – que nunca integrou o Acordo de Schengen nem o Euro Grupo – negociar individualmente com cada um dos países Membros da EU a suas relações futuras no âmbito sócio-económico, cultural e no domínio da política estratégica regional ou global.

- A cegueira da maioria dos países Membros na ideia peregrina em querer a Turquia dentro da União Europeia, um país onde nem sequer há espaço à igualdade entre homens e mulheres, à liberdade de imprensa, numa sociedade extremada e onde os direitos humanos são uma miragem.

- A incapacidade de Bruxelas puxar as orelhas a alguns governos dos seus Membros que tem optado por actuações autocráticas, sobretudo no âmbito das liberdades individuais e colectivas e do controlo da justiça, retirando-lhe alguma independência. Está a acontecer em alguns dos países do Leste europeu que pertenceram ao Pacto de Varsóvia à época da União Soviética, em particular a Bulgária que se encontra já na 111ª posição no indice de transparência e liberdade global.

- O último idealismo anunciado recentemente por alguns países Membros em constituirem um exército europeu comum, em contraste com a incapacidade de alguns desses mesmos países – a Alemanha é um dos maiores exemplos – contribuirem com as suas obrigações financeiras para com Organização do Tratado do Atlântico Norte (que conhecemos como NATO ou Aliança Atlântica) que é já uma aliança militar inter-governamental baseada no Tratado do Atlântico Norte que tem precisamente sede em Bruxelas e agrega 27 países europeus - a que se juntam o Canadá e os Estados Unidos - e que tem a defesa colectiva, gestão de crises e segurança cooperativa como tarefas fundamentais.

A União Europeia é desinteressante para 49,03% dos europeus, principalmente para os eslovacos, eslovenos, checos, croatas, búlgaros e portugueses cujas médias de votantes se situaram entre os 22,74% e os 30,73%. Bélgica (88,47%), Luxemburgo (84,10%) e Malta (72,70%) continuam a ser os países onde o interesse pelas questões europeias se mantém elevado. Dinamarca (66%), Espanha (64,30% e Alemanha (61,41%) viram a importância aumentada, mas ainda assim a abstenção ficou acima dos 30%.

 

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