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Padre Vítor Melícias - Uma vida dedicada a servir os outros!

Padre Vítor Melícias - Uma vida dedicada a servir os outros!

Falar de Vítor José Melícias Lopes é, seguramente, mais complicado que falar com o Padre Vítor Melícias (nome por que é conhecido nacional e internacionalmente).
A sua biografia e curriculo são tão vastos e ricos que no “seu” livro - ”Uma Vida, Uma Obra, Um Serviço”-, que fez o favor de oferecer com especial dedicatória, doze são as páginas ilustrativas dos mesmos, mesmo assim muito mais haveria ainda a dizer.


Optei por me socorrer de um resumo público, constante na Wikipédia, que, de forma sucinta, ajuda a entender a relevância deste torriense ilustre, de notoriedade patente nos quatro cantos do mundo, mas de uma simpatia e afabilidade ao alcance de poucos, com quem tive o privilégio de conversar.
“Ordenado sacerdote em 1962, Vítor Melícias é licenciado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, e em Direito Canónico, pela Pontifícia Universidade Antonianum de Roma, onde foi bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian.
Além do sacerdócio, exerceu funções num sem número de instituições de solidariedade social e associações de caráter diverso. Em 1974 foi eleito Presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses, função que exerceu até 1980, presidindo depois ao Serviço Nacional de Bombeiros, de 1981 a 1983. Em 1983 foi eleito Presidente do Conselho de Administração do Montepio Geral, onde esteve até 1988. Um mês antes, a 9 de Março, tinha sido empossado Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, cargo que desempenhou até Janeiro de 1992. Ainda em 1991 assumiu a presidência da União das Misericórdias Portuguesas e, dois anos depois, foi eleito presidente de honra da Confederação Internacional das Misericórdias. Desde 1998 foi membro efetivo do Comité Económico e Social Europeu e, em 1999, nomeado comissário Nacional para o Apoio à Transição em Timor-Leste.
Paralelamente a essas atividades, Vítor Melícias esteve ainda ligado à docência, nomeadamente nas áreas do Direito Canónico e da Filosofia do Direito, que lecionou no Seminário da Luz, no Instituto Superior de Estudos Eclesiásticos, no Instituto Superior de Teologia de Évora e na Universidade Católica Portuguesa. Lecionou também Ética e Gestão de Empresas, no Instituto Superior das Novas Profissões.
Foi agraciado como Grande-Oficial da Ordem do Mérito a 3 de Agosto de 1983, com o Prémio Nacional de Solidariedade em 1986, elevado a Grã-Cruz da Ordem do Mérito a 7 de Outubro de 1993 e agraciado com a Grã-Cruz da Ordem Militar de Nosso Senhor Jesus Cristo a 4 de Março de 2006”.

Se toda a gente gosta de mim,
não sei se gostam
nem têm que gostar,
agora que eu gosto de toda a gente, isso efetivamente gosto.

Revista Festa - É uma pessoa consensual, de que geralmente as pessoas gostam...
Padre Vítor Melícias - Não sei se sou uma pessoa de quem toda a gente gosta, agora eu sou uma pessoa que gosta de toda a gente. Por natureza sou jovial, aberto, pluralista, dou-me com todos, respeito toda a gente e todas as diferenças, sejam de etnias, culturas, religiões, condição social, tenho por toda a gente um grande carinho e uma grande ternura. Sinto-me bem com todos.
Se toda a gente gosta de mim, não sei se gostam nem têm que gostar, agora que eu gosto de toda a gente, isso efetivamente gosto.

Festa - O Sr Padre Melícias é torriense?
Pe. V. Melícias - Sou torriense do Ameal, da freguesia do Ramalhal e sempre me senti muito torriense.
Fiz a escola primária no Ramalhal e aos 11 anos fui para um seminário, em Montariol - Braga, porque tinha um tio que era franciscano, foi uma figura muito ilustre da vida nacional, chamado Fernando Félix Lopes - irmão do meu pai - que foi ministro provincial da Ordem Franciscana, como eu aliás também vim a ser, e foi membro efetivo, e depois honorário, da Academia Portuguesa de História, que lhe publicou, em três volumes, toda a sua obra escrita. Foi um grande historiador português e figura ilustre, que tem nome de rua na nossa terra, no Ameal.
Ora bem, quando era miúdo e ainda andava na escola, talvez por influência e pela admiração que eu tinha pelo nosso pároco - Joaquim Rebelo - comecei a sentir uma enorme vontade de vir a ser padre, e dizia-o lá em casa. O meu pai acabou por falar com o meu tio, que ainda teve uma certa resistência, mas acabou por me encaminhar e, inclusivamente, encontrar uma pessoa que me arranjou uma “bolsa” para poder ir estudar no seminário. Éramos uma família pobre, os meus pais tiveram nove filhos, e sem esses apoios, uma prática de alguma forma comum e muito útil, a população pobre das aldeias não tinha possibilidade de mandar os filhos estudar, nem nos liceus nem nas universidades ou seminários, que naquele tempo preenchiam uma lacuna muito importante na educação dos jovens.


Festa - Aliás, nessa altura, a igreja católica era um dos principais pilares da educação em Portugal?
Pe. V. Melícias - Sem dúvida alguma. Um dos maiores serviços que a igreja portuguesa fez, além da atividade missionária e da implementação da nossa cultura e da nossa fé no “hoje” chamado mundo da CPLP e da lusofonia, foi prestar este serviço, o de preparar muita gente para a vida civil através da possibilidade de estudar nos seminários.
Muitas das pessoas que tiveram enorme influência económica, social e política no nosso país aprenderam efetivamente nos seminários, que eram exelentes escolas, de grande disciplina e rigor onde os jovens aprendiam, e aprendem, a ter gosto em estudar.
Foi um serviço de que acabei também por beneficiar, pois, como disse, saí daqui com onze anos e fui para Braga, para uma escola franciscana, e foi a melhor coisa que me poderia ter acontecido pois tenho muito gosto e felicidade em ser franciscano.

Festa - Optou por ser franciscano porquê?
Pe. V. Melícias - Desde logo houve uma enorme influência sobre a história de São Francisco de Assis,  um homem que foi genial, uma figura que marca toda a história e que já a nós, desde meninos, nos atraía imenso.
Foi um homem da poesia, da disponibilidade, da alegria, amigo dos pobres, e os próprios franciscanos, nessa altura, já nos falavam muito desse sentido da fraternidade universal, que São Francisco pregava. Não são só os seres humanos que são todos irmãos uns dos outros, também todo o ser humano é irmão de todas as coisas, do sol e da lua, dos bichinhos que andam pelo campo, das ervas e das plantas, e isto é uma coisa encantadora, muito mais para um miúdo, nessa altura da sua vida.

Festa - São Francisco de Assis também é o padroeiro de causas ecológicas. Estou certo?
Pe. V. Melícias - Sim. O Papa João Paulo II proclamou-o como padroeiro da ecologia, ou dos movimentos ecologistas. Exatamente porque era um homem que tinha essa visão de que tudo é irmão, tudo deve ser tratado com o carinho de um irmão.
Nós hoje falamos muito de ecologia, um termo aliás bastante moderno que nasceu nos finais do século XIX na Alemanha, que significa o saber utilizar a nossa “casa”, quer a dos seres humanos ou de todos os outros seres, e fazer uma gestão, uma vivência, desta coisa extensa de “todos na mesma casa” de maneira a haver harmonia, haver paz e felicidade.
Embora a ecologia que hoje muitas vezes se defende seja uma ecologia do medo, do interesse, pois o ser humano, em muitos casos, julga-se dono de tudo, pensa que todas as coisas foram feitas para o homem: os animaizinhos são para o homem, as plantas são para o homem, as outras coisas são para o homem... não, o homem, juntamente com as outras criaturas, é interligado por um elo de fraternidade, num plano em que sejamos todos irmãos, até porque há uma inter-dependência, inter-relação, e inter-fraternidade. O erro que muitas vezes se comete é o de se pensar só nos interesses do homem, pois quer-se preservar a natureza “porque senão daqui a uma geração ou duas os filhos e os netos... não têm”. É o egoísmo do ser humano, que fala de solidariedade mas não para com as outras criaturas e sim para com a geração humana que virá a seguir.
A visão de São Francisco de Assis é completamente diferente, de fraternidade, de amor, onde todas as coisas devem ser tratadas com amor porque são nossas irmãs e todos fazemos parte dessa “casa comum”. Tudo o que existe é a “casa” de todos e para todos e, como tal, cada um, cada ser, deve ser respeitado como parte dessa mesma “casa” em que vive e habita.


O Papa Francisco está exatamente a retomar essa prática
de um modelo de comunhão em que o mais importante
é que sejamos boas
pessoas, bons homens,
que cuidemos uns dos outros, pois
a “casa” é de todos
e
por todos deve ser cuidada.

Festa - O Papa Francisco tem, em termos gerais, uma linha de pensamento e de atuação muito seme-lhante à de S. Francisco, dentro da própria igreja, com o despreendimento em relação às coisas, aos valores materiais?
Pe. V. Melícias - Quando foi eleito, o próprio cardeal Cláudio Hummes, um franciscano que estudou comigo em Roma, sugeriu que nunca se esquecesse dos pobres e escutou como resposta “foram sempre a minha preocupação”.
Aliás, o próprio Papa escolheu o nome de Francisco exatamente por causa disso. O nome de um homem amigo do pobre, que transformou a própria presença da igreja e o modo de ser da igreja, na sociedade daquele tempo. O Papa Francisco, neste momento, está exatamente com a mesma coragem, e até com a sua aparente simplicidade, com um verdadeiro espírito franciscano, com muita determinação, a enfrentar inclusivamente resistências e oposições que lhe fazem, a ser um verdadeiro transformador da sociedade e da mentalidade atual. Por um lado está a “repescar” o Concilio Vaticano II, em que a igreja transformou o seu modelo e presença, deixando de ser uma igreja de poder, de capacidade, de hierarquia, de um só dogma para todos, para passar a uma igreja que não nasce de cima para baixo mas sim pela própria base onde depois há uma grande comunhão universal à qual preside o Papa.
Esta mudança fez com que, até nas práticas como a liturgia, o altar deixasse de ser o local para onde todos se viravam, o sacerdote deixou de ser aquele que celebrava para os outros, e passou a existir mais uma igreja em que as práticas são celebradas por todos, em conjunto, deixou de ser “ir assistir à missa” para se ir “celebrar a missa” com aquele que preside ao ministério, num sacerdócio de serviço aos fiéis. O Papa Francisco está exatamente a retomar essa prática de um modelo de comunhão em que o mais importante é que sejamos boas pessoas, bons homens, que cuidemos uns dos outros, pois a “casa” é de todos e por todos deve ser cuidada.

Na realidade, se quisesse ser rico tinha tido possibilidades de o ser...
exerci funções
de alguma relevância...
mas, não o sou por opção.


Festa - Nos últimos tempos surgiu a notícia, em alguma imprensa, de que o Padre Melícias, por tudo o que já foi na vida e por todas as funções que já desempenhou, é um homem de certa forma abastado, no que a bens materiais diz respeito?
Pe. V. Melícias - Normalmente hoje em dia temos um tipo de comunicação, designadamente as redes sociais, que procuram coisas que muitas das vezes não carecem de qualquer fundamentação, que é o caso, para conseguir impacto fazendo grandes alaridos.
Os próprios jornais, se virmos com atenção, grande parte das primeiras páginas trazem temas a público com o intuito de promover a inveja, a mesquinhice, a vingança e não a imensidão de coisas positivas que também há neste mundo.
É verdade que algumas notícias apontavam para que, no meu caso, devido às funções remuneradas que exerci, pois grande parte delas não eram remuneradas, devia ser um homem muito rico, com uma reforma exorbitante... quando acontece exatamente o contrário.
Na realidade se quisesse ser rico, tinha tido possibilidades de o ser, pelas minhas condições de cultura, tenho duas licenciaturas em direito, lecionei em diversas universidades, falo seis línguas, exerci funções de alguma relevância... mas, não o sou por opção.
Há muitos anos, desde pequenino, mas sobretudo desde a profissão de fé, sou como qualquer frade franciscano, uma pessoa que vive “sem próprio”, que não tem propriedade, que não tem nada. Pode usar os bens que lhe são disponibilizados, na medida em que lhe seja autorizado pelos seus superiores, mas não tem o direito de propriedade.


Festa - Está a dizer que o que aufere, muito ou pouco, vai para a comunidade franciscana?
Pe. V. Melícias - Claro que sim. Evidentemente que tenho uma pensão, ou melhor, tenho três pensões, uma de associado do Montepio, tenho uma estatutária do Montepio e uma pensão normal da Segurança Social, que no total perfazem efetivamente cerca de quatro mil euros, que vão automaticamente para o Convento de que sou membro. Cerca de três mil ficam nos franciscanos e cerca de mil euros são-me disponibilizados para as despesas do dia-a-dia, que tenho, devido às diversas ocupações que exigem a minha presença pessoal. O carro com que me desloco não é meu, é da Ordem, propriedades não tenho nem posso ter, a própria roupa que utilizo é da Ordem, assim como a única conta bancária em que ponho o meu nome é, também ela, da Ordem Franciscana, que obriga a duas assinaturas - a minha e a do ecónomo da Ordem.

Festa - Quer dizer então que se trata de um “mito”?
Pe. V. Melícias - É um mito, mas um mito mal intencionado, para tentar criar escândalo. Mas é bom que fale disso. Os meus sobrinhos sabem, toda a gente sabe, quando falecer não há nada para herdar, porque na realidade não tenho nada, não possuo qualquer bem material meu.
Mesmo aquilo que recebo, fruto do meu trabalho, e que entra diretamente na conta da Ordem, não representa qualquer pensão diferente daqueles que fizeram a mesma coisa que eu, e é resultante dos descontos que fiz. Embora a maior parte das funções que desempenhei tenha sido voluntária, sem qualquer remuneração, como por exemplo a minha participação na União das Misericórdias e na Liga dos Bombeiros, outras houve em que tive a minha remuneração, porque fazia parte da função que desempenhava e para que me convidaram.

Festa - Referiu ter duas licenciaturas em direito, tirou-as ainda antes ou já depois de estar nos Franciscanos?
Pe. V. Melícias - Foi já depois de ter entrado.
Estudei no Seminário, depois no Instituto Superior de Teologia, onde depois também dei aulas, como professor, e ordenei-me em Lisboa em 1962, tinha então 24 anos. Nesse mesmo ano fui para Roma, estudar Direito Canónico (onde teve a melhor nota do curso, referimos nós), depois regressei a Lisboa, onde me inscrevi em Direito civil, embora já estivesse a exercer o ministério como padre.
Com o curso que tinha e com esse curso vim a lecionar depois filosofia do direito - na U. Católica - direito canónico e outras áreas jurídicas. Pelo meio ainda ensinei ética empresarial no Instituto de Novas Profissões, também ensinei em Évora e foi assim, passei a minha vida a ensinar, mas nunca deixando a minha vida de padre franciscano.

Festa - Pelo meio surge a liderar um banco: o Montepio. Como aparece um padre franciscano, licenciado em direito, a administrar um banco?
Pe. V. Melícias - É muito simples. Iniciei a minha atividade, logo depois de regressar de Roma, ligado aos emigrantes e às comunidades que emigravam e tinham aquela vida difícil no estrangeiro, naqueles tempos, e formei com um grande senhor que já faleceu - Valentim Morais - o jornal “O Emigrante”, que ainda hoje existe, embora com outro nome, onde se pretendeu defender os direitos dos emigrantes.
Quando surge o 25 de Abril era o que fazia, para além da minha vida de professor e de padre. Nessa altura houve necessidade de substituir algumas pessoas que trabalhavam para o Estado e vieram convidar-me para ser presidente da Caixa Central de Segurança Social dos Trabalhadores Emigrantes, que era como a Segurança Social dos trabalhadores emigrados. Aceitei, como missão e serviço, e uns tempos depois, no Montepio ouviram falar de mim e vieram ter comigo com a intenção de ajudar a restaurar o Montepio não como banco mas mais como mutualidade. Acabei por aceitar, colocaram-me na administração e, passado um ano, fui presidente.
Foi uma fase, em que sempre procurei que o Montepio fosse um banco de economia social, não um banco privado e capitalista, onde qualquer lucro seria para a Associação Mutualista, para os associados e outras pessoas a quem esta faz o bem, serem protegidas, daí se ter verificado um ressurgimento do Montepio como Associação Mutualista, aumentado imenso o número de associados. Cerca de seiscentos e cinquenta mil aos dias de hoje.
Para além disso, a partir do Montepio criámos a União das Mutualidades Portuguesas, de que ainda hoje sou associado de honra.
Ou seja, estive nos Bombeiros, na Santa Casa da Misericórdia, nas Mutualidades, porque sabiam que estava ali uma pessoa que o único interesse era “o servir” com a alegria de estar ao serviço, talvez por isso, anos depois, sou presidente honorário de todas elas. Nunca quis grandes remunerações, nem honras nem glórias, mas antes ter a alegria de sentir que me foi possível ajudar.
Há uma história que me marcou muito. Era eu finalista do seminário, ia-me ordenar padre, e quando ia para Montariol, vestido como era usual nessa altura com as vestes negras, chapelinho e gravatinha preta, no comboio - e lembro-me que demorávamos quase um dia a chegar lá -, ali na zona do Entroncamento houve um operário, vestido com o seu fato-macaco, que começou a brincar e a desdenhar de nós “estes padrecos, vocês vivem é para explorar o povo, não trabalham, querem é boa vida, são uns inúteis” e aquilo fez-me muita impressão, pois sempre pensei que se me tinha “metido nisto” só fazia sentido se fosse para ser útil. Aquilo fez-me pensar e tive algumas dúvidas de vocação, de tal maneira que cheguei a Braga e fui falar com o padre, para me confessar - por acaso o ministro provincial da Ordem e que veio a ser Bispo de Santarém - e ele falou-me de tal maneira, e deu-me tanta força, que até hoje a minha preocupação é mesmo ser útil. Seja no que for e onde for. Se calhar é por isso mesmo que eu “estou em todas”, agora até na Assembleia Geral do nosso Torreense, mas já estava na Física, nos Bombeiros, e em outras associações, mas com muito gosto.

Festa - A provedoria da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa surge depois de sair do Montepio?
Pe. V. Melícias - Saí da administração do Montepio, embora tenha continuado nos órgãos sociais, diretamente para a Santa Casa da Misericórdia, como Provedor.
Ao fim de cinco anos, saí da Misericórdia para a União das Misericórdias, mas, enquanto estive no Montepio, já mexia muito com as mutualidades e já tinha sido pre-sidente da União das Mutualidades, que não tem a ver propriamente com a União das Misericórdias. São coisas distintas. Mas são áreas em que sempre trabalhei, e a que me dediquei, porque são áreas que envolvem muito voluntariado, muita solidariedade, que envolvem muito a sociedade civil e onde me sinto muito bem, só é pena já ter uma idade que não me permite envolver tanto como gostaria em qualquer uma delas, ou em todas, porque são muito importantes e me motivam.

O que mais me impressiona quando recordo
os meus
tempos de Comissário (Timor)
foi mesmo a enorme solidariedade do povo
português.
Somos um povo efetivamente solidário.


Festa - Ainda recorda aqueles tempos de Timor, do sofrimento das populações e, depois, da auto-determinação?
Pe. V. Melícias - Julgo que não há português algum que possa esquecer aqueles momentos que fazem parte da nossa identidade e da nossa história.
Fui um povo que se uniu e que saiu à rua por solidariedade para com outro povo. Dois povos irmãos, com uma história comum, que estavam separados pela situação política e geográfica, que se reencontraram através do afeto e Portugal, pequenino, conseguiu mobilizar a sensibilidade política, com ajuda de alguns fatores que marcaram muito, como a mortandade no Cemitério de Santa Cruz, e que levou homens como António Guterres, Jorge Sampaio, e outros, a influenciar o próprio Bill Clinton. A política mundial voltou-se e a Indonésia foi quase obrigada a dialogar com Portugal e com o resto do mundo.
Foi todo um processo - eu na altura já era Comissário para Timor - que se preparou para levar à independência  daquele povo e que, pessoalmente, me fez criar grande amizades com grandes timorenses, como o Xanana, o Ramos Horta, Alcatiri, D. Basílio, o Bispo Belo, e tantos outros, mas toda a minha experiência de Timor ficou marcada em especial porque sentia que nós estávamos mesmo a fazer um serviço, uma ajuda, um apoio a um povo e que o estávamos a fazer por solidariedade.
O que mais me impressiona quando recordo os meus tempos de Comissário foi mesmo a enorme solidariedade do povo português. Somos um povo efetivamente solidário.
Infelizmente muitas vezes as estruturas da sociedade, a mentalidade do individualismo, o egoísmo que se vai lançando, prejudica esse sentido da solidariedade no dia-a-dia, mas quando há uma causa os portugueses são fantásticos.

Festa - Sente-se bem no Convento do Varatojo?
Pe. V. Melícias - Lindamente. É claro que continuo com muitas tarefas ainda por fora, quer aqui, em Portugal, quer no estrangeiro - ainda agora estive em Macau e de seguida em Inglaterra. Para além disso, tenho coisas em preparação para escrever e tenho a minha vida conventual bastante limitada, mas Torres Vedras é a minha terra e também aqui procuro participar, sempre que me é possível. Desde que haja alguma atividade em que sinta que posso ser útil, por cá estou também.

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