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Adega  Cooperativa São Mamede Ventosa Está a comemorar o seu 60º Aniversário e acaba de construir nova unidade, inaugurada pelo Presidente da República

Adega Cooperativa São Mamede Ventosa Está a comemorar o seu 60º Aniversário e acaba de construir nova unidade, inaugurada pelo Presidente da República

A Adega Cooperativa de São Mamede da Ventosa, no concelho de Torres vedras, é a maior produtora de vinho do país e está a comemorar os seus 60 anos de existência, no presente ano.
Acaba de construir mais umas novas instalações, para complementar as existentes e conseguir dar resposta à procura por parte dos seus cerca de meio milhar de associados, passando a sua capacidade para os 50 milhões de litros.


Em cima da saída da edição da nossa revista, Marcelo Rebelo de Sousa - o Presidente da República, preside ao acto solene de inauguração deste novo complexo, também ele situado nos Arneiros, em Ventosa - Torres Vedras.
Fomos até à Adega da Ventosa e conversámos com a sua direção, uma direção muito experiente, constituida por Luís Santos (presidente); Joaquim Amaro (tesoureiro) e Luís Aniceto (secretário).
Festa - Que representam as comemorações do 60º Aniversário para a Adega?
Adega - 60 anos já é uma idade adulta! Esperamos que, pelo menos se volte a fazer outros 60. Já não seremos nós que cá estamos, seguramente, mas era sinal de que havia vinha, de que havia vinho e que os associados continuavam unidos em torno da sua Adega.
A Cooperativa nasceu devido à necessidade que os viticultores da região sentiam, nessa altura, pessoas responsáveis e trabalhadoras mas com muitas lacunas em termos de condições de produção e de conhecimentos técnicos, e a associação desses pequenos produtores foi a forma encontrada para solucionar esses e outros pro-blemas que se colocavam na época.
Entretanto, nestes sessenta anos a Adega foi evoluindo, foi crescendo, e neste momento somos a maior Adega do país em volume de produção.
Festa - Esse foi o caminho certo?
Adega - Foi o caminho que se proporcionou, com a ajuda da própria Junta do Vinho, na altura, que serviu de apoio a quase todos esses empenhados pequenos produtores, e que, com altos e baixos nestes sessenta anos, se veio a verificar ser um caminho interessante que fez sobreviver o sector até aos nossos dias com a dinâmica que lhe conhecemos.

Festa - Mas, os tempos são outros?...
Adega - O que mudou mais foi em termos de gestão, atualmente mais profissional. As cooperativas têm um caráter social mas hoje em dia a economia é determinante e têm que ser geridas como verdadeiras empresas para se poder ter resultados, porque é isso que permite pagar melhor aos sócios, ter fundo de maneio para qualquer contratempo, enfim encarar o futuro com melhores prespetivas.

Festa - Depois de alguns anos em que as Adegas Cooperativas passaram períodos difíceis, o que é público, qual tem sido o ca-minho e qual a situação atual da Adega de São Mamede?
Adega - É evidente que a nossa Adega, como outras, teve momentos melhores que outros, mas nunca foi uma Cooperativa a que se tives-sem deparado dificuldades que a colocassem em causa como instituição.
Só para se ter ideia do que falamos, durante certo período algumas Adegas da nossa região viram-se obrigadas a diversos saneamentos financeiros. A nossa, felizmente nunca teve necessidade de recorrer a esse tipo de saneamento.
Claro que também tivémos que ultrapassar algumas situações mais complicadas, mas conseguimos estabilizar e, neste momento, posso dizer que pagamos aos nossos associados religiosamente todos os três meses. Acabámos de construir as novas instalações, para termos uma maior capacidade de resposta, e a situação é estável e relativamente segura.
É evidente que nunca podemos cruzar os braços e dizer que estamos descansados, pois com as constantes alterações de mercados e ao ritmo a que o mundo gira, neste sector, como na maioria dos sectores, nunca podemos estagnar e pensar que está tudo resolvido. Temos que ter uma atenção e um acompanhamento constantes que nos permitam estar dentro do que o mercado procura, pois se não for assim, tudo muda a uma velocidade vertiginosa.

Festa - Quais os principais períodos por que a Adega passou?
Adega - Sempre fomos uma Adega com alguma dimensão, mas ao longo destes sessenta anos pode considerar-se que existem quatro grandes fases. Os primeiros quinze ou dezasseis anos, em que se vinificava e o destino do vinho eram as ex-colónias.
Depois, entrou-se numa fase em que o principal destino se mudou para o norte do país, e recorda-se que em certa altura o cliente mais a sul que a Adega tinha situava-se em Mogofores, próximo de Anadia.  
A seguir vem um outro período, com a entrada na CEE, em que se vendia um pouco para o mercado nacional e para a Europa, e havia uma série de apoios, às destilações, às armazenagens, etc.
A partir de há dez anos a esta parte, a última grande fase, em que entrámos no mercado da exportação com uma maior dimensão que tem absorvido a quase totalidade da nossa produção. São períodos distintos, e penso que estamos à beira de um quinto em que, com a baixa dos preços do petróleo e a dificuldade sentida por esses próprios mercados, e pela saída de divisas dos mesmos, certamente que teremos que ir procurar novos mercados para colocar o nosso vinho e, porque não, fazer uma aposta maior no próprio mercado nacional.

Festa - Isso tem reflexos no preço de venda dos próprios vinhos?
Adega - Aqui há uns anos atrás, até à entrada na União Europeia, sim, era a produção nacional que determinava os preços do vinho. Havia anos de maior produção em que o preço baixava, outros de menor produção em que aumentava.
A partir do momento em que entrámos num mercado mais global, e com a abertura de fronteiras na Europa, tudo isso se alterou, porque a própria produção portuguesa representa pouco no universo europeu, o que quer dizer que é mais importante a qualidade e competitividade dos meios de produção e das vinhas. O preço do vinho em si é estável, sem grandes oscilações. Nunca é o preço pretendido, porque na própria UE há excedentes de vinho, mas é um preço possível e dentro das expectativas.

Festa - Neste momento, a idéia existente é a de que os vossos vinhos não estão muito no mercado nacional. A Adega produz e vende para quem?
Adega - É completamente verdade. Há uns anos, já tivémos uma rede de distribuidores com cobertura do país, desde o Minho ao Algarve, estivémos nas grandes superfícies, etc, mas como sabe, ao longo dos anos, cada vez mais apareceram operadores económicos neste mercado, uns de maior outros de menor dimensão, que acabam por saturar o mercado.
Nós, sendo uma Adega com alguma dimensão - e só para lhe dar um exemplo, ainda no passado ano produzimos mais de vinte e sete milhões de quilos de uva, o que dá mais de vinte milhões de litros de vinho - tivémos que procurar novos mercados que nos dessem uma estabilidade de escoamento de que necessitavamos. Foi isso que se verificou, e acabamos por ter uma percentagem residual de vendas para o mercado nacional, embora tenhamos a nossa produção completamente escoada.
Foi uma opção que tomámos de forma consciente e que nos tem dado alguns resultados.

Festa - É muito pequena, então, a quota nacional?
Adega - Sim, representa 3 a 4% da nossa produção, embora, neste momento, estejamos a pensar aumentá-la um pouco, pois somos uma Adega nacional, temos excelentes vinhos e justifica-se uma presença mais significativa.

Festa - Este segundo espaço que estão a inaugurar agora, que representa?
Adega - Estas segundas instalações são o culminar de uma fase, de um projeto, em que esta direção se empenhou com os próprios associados. Logo à partida permite-nos dar resposta à produção destes nossos associados ao mesmo tempo que respondemos também às necessidades das solicitações do mercado.
Por outro lado, esse espaço permite-nos criar novas valências na Adega, desde uma maior ligação ao passado riquissimo que temos, com a criação de núcleo museo-lógico onde seja possível retratar todo o respeito que temos para com o nosso passado. Também a abertura da Adega irá ser possível neste espaço, onde vamos criar condições para receber visitantes, no fundo para receber todos aqueles que apostam no enoturismo, uma forma de turismo em verdadeiro crescimento.
Enfim, este nosso novo espaço, que vem complementar o já existente, vai permitir-nos, para além do aumento da capacidade produtiva, ter uma ligação muito maior às pessoas que se interessam pela Adega e pelo vinho.

Festa - Em termos produtivos, a Adega também evoluiu?
Adega - Como é evidente, desde a nossa fundação que sempre se verificou uma evolução constante. Nos últimos anos, com o aparecimento das novas técnicas e tecnologias essa evolução foi enorme e muito rápida.
Neste momento, as castas produzidas pelos nossos associados são outras, os métodos utilizados são o mais modernos possíveis, todos os cuidados colocados na vinificação também são diferentes, e tudo isso leva a que neste momento tenhamos um produto de muito melhor qualidade, com uma relação preço/qualidade muito mais interessante, e é isso que também queremos dar a conhecer neste momento, porque julgamos ser importante.

Festa - Que tipo de vinho produz a Adega?
Adega - A área de intervenção da Adega está delimitada pela Comissão Vitivinicola de Lisboa, o que significa que só em cerca de 20% da nossa área de intervenção podemos produzir vinhos tintos, que leva a que tenhamos que fazer previamente a inscrição para a produção do DOC Torres Vedras, o “Alma Vitis”.
Depois, temos dois tipos de vinhos Regionais. Até aos 9,5º, o “Arieno”, um Vinho Leve, e a partir desse teor alcoolico outro tipo de vinho que apresentamos sob várias marcas, como “Terras de Agostinho”, “Dom Mamede” e ainda algumas outras, que têm igualmente que ser certificados pela CVL. Têm muita qualidade, e vou-lhe confidenciar, mesmo nos Vinhos de Mesa, hoje em dia os nossos vinhos são de uma qualidade extrema. Desde que tenhamos um vinho de uma casta que esteja fora de uma região demarcada igual à produzida numa região demarcada, com as condições técnicas e de controlo que atualmente temos, o vinho nunca será muito diferente, como por vezes se possa pensar.
Hoje em dia, todo o vinho que se produz aqui, na Adega, é de muitissimo boa qualidade. A diferença que existe, pelo menos nos nossos vinhos, entre um vinho de mesa (agora designado só por “vinho”) e um vinho regional reside apenas na certificação, em mais nada. O nosso “Orla Marítima”, por exemplo, é um vinho de uma quali-dade extrema que em nada desprestigia qualquer um dos nossos outros vinhos.

Festa - Mas, por exemplo o “Orla Marítima” é apresentado em embalagens “Tetra”. Isso não desprestigia de alguma forma o vinho?
Adega - Claro que não. A opção por esse tipo de embalagem tem mais a ver com a capacidade de transporte, o que a nível de exportação é determinante. Veja que num contentor, por exemplo, ao enviar vinho engarrafado consegue-se colocar 16.000 garrafas por contentor, enquanto em pacote conseguimos enviar 22.000. É uma diferença muito significativa e importante em termos de custo final do produto, quando no fundo se trata exatamente do mesmo vinho.

Festa - Voltando ao vinho DOC. Quais as caraterísticas do vinho de topo da Adega?
Adega - Os vinhos DOC, como o nosso “Alma Vitis”, são vinhos produzidos sobretudo de certas castas aprovadas para cada região, onde existe igualmente um controlo na quantidade produzida.
Isto, enquanto os Vinhos Regionais têm uma abrangência maior de castas e não têm esta limitação.

Festa - Quais as principais castas utilizadas na região e pela Adega?
Adega - Nos vinhos brancos, o Fernão Pires, uma casta nacional e alguma coisa de Arinto. Em termos de tintos, o Aragonês, muito em paridade com o Caladoc e o Syrah, são as castas predominantes. Também existem outras castas, como o Alicante Bouschet, as Tourigas, etc, mas em quantidades menos significativas.

Festa - No mercado nacional, em que tipo de vinho vai recair a aposta?
Adega - para o mercado nacional, até porque o consu-midor ainda consome muito pela imagem, teremos que apostar numa das marcas Regional ou DOC, com as marcas que temos ou mesmo com novas marcas que preten-demos criar ao mesmo tempo que pretendemos lançar uma nova imagem da Adega.

Festa - Esta nova imagem tem a ver com a inauguração do segundo espaço e do que lá pretendem fazer?
Adega - Tem alguma relação, sim, não são coisas desgar-radas, mas não tem obrigatoriamente que ser tudo na mesma altura.
Tem mais a ver com os 60 anos da Adega, onde, por exemplo vamos também criar uma “edição limitada” comemorativa, como já foi feito em aniversários anteriores, com um vinho de topo. Mas, para além disso, em termosde vinho, vamos criar reservas e envelhecimento no novo espaço, pois temos caves, capacidade de envelhecimento de vinhos e a mais moderna tecnologia, o que nos vai permitir, para além de já sermos os maiores em termos de produção, estarmos ao nível dos melhores em termos de técnicas e de qualidade, podendo segmentar os nossos vinhos dentro de um mercado de qualidade muito exigente, acompanhando as próprias tendências de consumo.
o Carlos Rosa

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